Resposta para o eu de cinco anos atrás.

Os indivíduos estão em constante mudança. Velhos pontos de vista dão espaço para novos, conforme fazemos o uso da razão para iluminar nosso caminho.

A cinco anos atrás eu tinha uma opinião bem diferente da que tenho hoje. E se você tivesse a oportunidade de “voltar ao passado” e ter um dialogo com si mesmo? bom, eu tive uma experiência parecida.

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Navegando pela internet me deparei com um texto meu de 2011. Aqui vai uma resposta ao “meu eu” de cinco anos atrás.

“Eu de ontem”: Vivemos hoje em uma sociedade na qual excessos se tornaram normais, vivendo em uma economia em que o significado da palavra é antagônico a sua definição atual. Nossa Economia não tem nada de econômico, hoje em dia, por exemplo, a durabilidade de um determinado objeto que pode ser comprado, é inversamente proporcional ao crescimento e à preservação da nossa Economia Mundial, isso mesmo, quanto mais frágil for um objeto que você compra, melhor é para a Economia Mundial, pois assim faz o capital sempre girar. Será que esse nosso método de viver é viável em um planeta com recursos finitos? A verdade é que ninguém se importa, e isso infelizmente é uma herança deixada para nós.

“Eu de hoje”: Prezado “eu antigo”, compreendo sua visão, inclusive você aborda um tema bem interessante. Primeiro, não existe um ente chamado “economia mundial”. O que existem são indivíduos interagindo, cada um buscando sua subsistência via métodos pacíficos. Vejamos o argumento sobre a durabilidade dos produtos: primeiro, o que em última análise vai dizer se um produto é bem sucedido, ou mal-sucedido, são os indivíduos dispostos a gastarem seus recursos para adquiri-los. Para gastar recursos ao adquirir um certo item, eu abro mão de adquirir outro, pois escolhi utilizar os recursos escassos que tinha para adquirir um item, e não outro qualquer. Existe algo chamado custo/benefício. Uma empresa, logicamente, utiliza materiais para confeccionar seus produtos, estes materiais devem ter um custo/benefício cujo o preço do produto acabado seja atraente para o consumidor. Não é necessariamente que a empresa quer que seus itens estraguem rapidamente para o consumidor comprar outro, mas simplesmente, uma questão de custo/benefício. Você compraria um celular feito de titânio por R$ 20.000,00? E mesmo se fosse sua vontade, em pouquíssimo tempo o item ficaria tecnologicamente ultrapassado, e não atenderia suas necessidades atuais. Imagina que a Motorola tenha lançado seu primeiro celular feito de titânio. Hoje em dia ele não serviria para muita coisa, além de peso para papel. Outra questão, é que consumidor algum gosta de adquirir produtos que ele sabe que não vai durar. Em uma economia livre, se um consumidor adquire um produto que acaba por ter uma vida útil demasiadamente pequena, menor do que o esperado, muito provavelmente ele ficará insatisfeito e buscará adquirir o produto do concorrente. A não ser que o mercado seja regulado por uma instituição violenta e coercitiva que impeça novos competidores de competir neste mesmo mercado.

Sobre os recursos finitos do planeta: recursos escassos geram conflitos. Falando-se de sociedades humanas, qual é a melhor configuração social que permite os melhores resultados na resolução de conflitos e na busca por subsistência dos indivíduos? Hoje eu sei que apenas um modelo de configuração social que tenha incorporado o conceito de propriedade privada é capaz de prover interações sociais humanas não violentas. Por exemplo: Em uma sociedade sem o conceito de propriedade privada, digamos que um indivíduo tenha sentido fome e decidiu sair para procurar comida. Após uma cansativa caçada, ele volta para sua vila e é abordado por outro indivíduo, mais forte que ele, e que acaba por usurpar sua caça, produto de seu esforço e seu trabalho. Em uma sociedade sem o conceito de propriedade privada, este ato não poderia ser condenado como imoral e anti-ético. Mas em uma sociedade que tenha o conceito de propriedade privada aceito, tal ato seria instintivamente visto de maneira negativa, pois é um ato que gera uma queda na qualidade de vida de TODOS os demais indivíduos desta espécie, veja bem: ao notarem que o produto de seus esforços foi usurpado e consequência nenhuma irá atingir o agressor, os demais indivíduos sentiriam-se desmotivados a produzir mais coisas, mais caças, mais alimentos, mais riquezas, pois saberiam que seu esforço poderia vir em dar em nada. Utilizando nada mais do que a razão nós podemos ver que qualquer iniciação deliberada de agressão é em si contra-produtivo para toda a espécie a qual aquele indivíduo pertence. Portanto, mesmo que o argumento de que os recursos naturais – que são também propriedade privada de alguém, daquele que primeiro se apropriou de algo sem dono ou adquiriu mediante uma transação econômica –  são utilizados hoje em dia sem o menor cuidado, não caberia a você decidir ou opinar sobre o modo de utilização destes, visto que você não é o dono desta propriedade privada, e tentar gerir algo que não é seu, contra a vontade de seu dono, é claramente uma iniciação de agressão. No entanto, a cada dia, motivados nada mais do que pela a auto-satisfação de suas necessidades, a humanidade descobre novos recursos e novos meios mais produtivos de utiliza-los. Nunca antes na história da humanidade conseguimos fazer tanto, com tão pouco, e em uma sociedade livre, a tendência é só melhorar, e fazer sempre mais com menos. Se eu posso gerar energia utilizando menos recursos, porque eu utilizaria um método que me faria gastar mais? indivíduo nenhum gostaria de ver seus bens sendo desperdiçados. Sua afirmação, apesar de ser um tanto apelativa para a consciência, não passa de um mero artifício retórico. Não condiz com a realidade.

“Eu de ontem”: Somos condicionados desde pequenos a pensarmos apenas em nosso favor, não nos importamos se nosso modo de vida é sustentável, desde que não soframos com as consequências, que na maioria das vezes vem apenas em longo prazo, e é deixada como presente para a próxima geração. Infelizmente, esse egoísmo que nos foi deixado de herança, nos foi meticulosamente implantado de modo que muitos não conseguem ao menos ver. Fomos condicionados a sermos indivíduos extremamente egoístas desde pequenos, pela própria sociedade, que nos ensinou, e aprendemos com demasiada maestria. Mas, por que fomos condicionados a sermos egoístas? Simplesmente porque para o nosso modo de vida, é um pré-requisito.

“Eu de hoje”: Muito pelo contrário, caro “eu de ontem”, hoje somos impregnados que o pensamento egoísta é algo ruim. Eu mesmo, aliás, nós mesmos, crescemos aprendendo isso, não se lembra? No entanto, é o pensamento egoísta que move o mundo, que cria riquezas, que aumenta o padrão de vida dos demais indivíduos (também egoístas), e que nos proporcionou galgar uma qualidade de vida hoje superior à qualidade de vida dos reis e imperadores de alguns séculos atrás. Negar nossa natureza egoísta é como negar a lei da gravidade, não passa de teimosia ideológica.

A ação humana é pautada em algo bem simples: mecanismos de incentivo. Todo indivíduo age buscando sair de uma realidade menos satisfatória, para alcançar uma realidade mais satisfatória, mais prazerosa para si. Tendo isto em mente, é óbvio que todos nós somos motivados por nossas próprias necessidades. É buscando satisfazer suas necessidades que os indivíduos empreendem esforços. Trabalhar é algo um tanto oneroso, no entanto, os indivíduos assim fazem pois desejam alcançar um estado de maior conforto do que o atual, logo, o oneroso esforço de trabalhar é empreendido apenas pois sabemos que o resultado final após o esforço será mais satisfatório do que o estado pré-esforço. Se eu decido não agir, é porque acredito que o estado após a ação não seria mais satisfatório do que o atual.

Entendido este ponto, devo aqui deixar algo claro. Comportamento individualista e egoísta não tem nada a ver com agredir indivíduos pacíficos para melhorar meu conforto. Como já vimos, toda e qualquer iniciação de agressão é anti-produtiva, imoral e antiético, vai contra a natureza de toda a espécie e contra o crescimento da qualidade de vida e produção de riqueza para toda aquela espécie. Logo, uma agressão não é igual a um comportamento egoísta. É meramente uma agressão. Mesmo que o agressor não consiga ver, ele mesmo estará se prejudicando ao iniciar uma agressão, pois todos os indivíduos circundantes ficariam desmotivados a produzir mais riquezas, o que cedo ou tarde afetaria o agressor de maneira negativa. É apenas por isso que o governo (ao menos os espertos, o brasileiro não consegue nem chegar a esta conclusão) tenta roubar apenas até um ponto onde a vida dos indivíduos que foram escravizados não se torne insuportável, pois desta maneira eles conseguem realizar o roubo sem parar o motor que gera a riqueza (as interações pacíficas entre indivíduos). Mas caro, “eu de ontem”, não fique triste, ao menos uma coisa você acertou. O egoísmo é sim um pré-requisito. É o pré-requisito número um da AÇÃO HUMANA. Mas não. Não é algo ruim.

“Eu de ontem”: Como não foi possível esconder o contraste social, nos fizeram acreditar que ele é normal, assim não causaria mais o impacto nas pessoas e consequentemente não despertaria a revolta, que é necessária para começar uma revolução em nosso modo de vida, assim nos fazendo adotar o “bom” e velho conformismo. Fizeram-nos acreditar que aqueles que estão nas mazelas da sociedade, nos becos da exclusão social, estão ali, por conta própria, porque foram incapazes, e pensando bem, foi uma boa estratégia, porque assim logo nosso sentimento de compaixão com o próximo, se extingue. Logo, não mais nos sensibilizamos com as dores do próximo, o que nos torna menos humanos. É isso mesmo, a cada passo que damos rumo à “evolução”, retrocedemos no quesito humanização, estamos a cada dia que passa, sendo condicionados a nos tornar menos humanos.

“Eu de hoje”: Algo que desconhecíamos quando escrevemos este texto, é que o estado inicial do homem é a miséria. Eu, aliás, nós jamais negamos a – muito falada – desigualdade social. Cada indivíduo é um ser diferente. Cada indivíduo possui fins e objetivos diferentes. Cada indivíduo possui qualidades diferentes. Cada indivíduo possui visões de mundo diferentes. Porque diabos todos os indivíduos deveriam ter a mesma contraparte material?! Mas não me entenda mal, não estou aqui defendendo a miséria. Quem gosta de enaltecer a pobreza são os socialistas. Se analisarmos honestamente as causas da miséria, vamos ver que é meramente fruto de um arranjo social violento que favoreceu alguns poucos em detrimento dos demais. Não. Não me refiro ao tão mal falado e mal compreendido capitalismo. Mas sim aos mecanismos coercitivos que impediram e impedem até hoje os indivíduos de agirem buscando galgar níveis de qualidade de vida e conforto. Sabemos hoje que regiões onde o aparato coercitivo e violento conhecido como estado é menor, os indivíduos possuem melhor qualidade de vida. Para que riquezas sejam criadas, os indivíduos devem ter liberdade para agir. Por exemplo: digamos que eu esteja desempregado e decida vender alguns itens para gerar renda. Eu me dirijo a um mercado e adquiro minha mercadoria. No entanto, ao tentar comercializar meus produtos , sou abordado por “fiscais” de uma dita instituição que possui como meio de subsistência o ato de usurpar recursos de terceiros sem sua prévia-autorização. Estes fiscais vão confiscar minha mercadoria, pois, segundo eles, eu preciso de uma “liberação” de outros indivíduos para agir pacifica e voluntariamente com o objetivo de buscar minha sobrevivência. É assim que funciona quase todos os mercados e possibilidades hoje. O estado cria uma proteção coercitiva para alguns operadores, protegendo-os de novos competidores. Porque você acha que empresas bem estabelecidas e protegidas por estes mecanismos coercitivos são defensores tão vorazes do estado? Já viu a VIVO lutando contra a ANATEL para a ANATEL deixar novos competidores virem concorrer com a VIVO? Já viu o ITAÚ criticando o banco central, pedindo para este deixar novos bancos surgirem para competir?

Porque você acha que a maioria das grandes fortunas foram feitas em uma época onde o aparato coercitivo do estado era não tão eficiente? simplesmente pelo fato de que as pessoas tinham liberdade para agir. Hoje, grandes fortunas são feitas via carreira política ou via lobby político. Porque, caro “eu de ontem”, as maiores fortunas do brasil hoje são empreiteiras e bancos que cresceram prestando serviço para o estado e não para indivíduos livres?

Portanto, aqueles que estão hoje nos “becos da exclusão social” não estão lá porque outro indivíduo teve sucesso. Economia não é um jogo de soma a zero. Aqueles que na miséria se encontram hoje, estão lá pois cortaram suas asas, os impediram de aprender e de agir, e hoje acreditam que a única maneira de viver é as custas de um estado paternalista, que os fizeram acreditar que aqueles que produziram e acumularam são seus inimigos, pois foram ensinados que fazer por si mesmos, que buscar sua subsistência e acumular é algo errado, quando na verdade é não só o certo, mas o único caminho de melhorar a qualidade de vida para TODOS os indivíduos circundantes.

Por fim, nos tornarmos mais humanos é nos tornamos mais livres para agir conforme nossas vontades, nossos sonhos e objetivos, e assim buscar nossa felicidade conforme nossas próprias diretrizes internas – sem iniciar agressões contra nossos semelhantes. Qualquer outra forma de interação social que não seja a forma pacífica e voluntária é ANTI-HUMANA.

“Eu de ontem”: Nós seres humanos, somos sociáveis por natureza, eu diria que, talvez, um dos piores castigos para o ser humano é a solidão, porém estamos nos tornando uma espécie que já não liga para o bem estar de seu semelhante, não mais agimos como um todo, mas como tolos, tentamos agir individualmente dentro de um todo. Não me surpreende que mesmo vivendo junto a um mar de pessoas, indivíduos conseguem se sentir isolados, em uma grande solidão, mesmo estando em um mar de semelhantes. Precisamos lutar contra esses condicionamentos em que a sociedade nos impõe, precisamos nos agarrar ao companheirismo, e fazer surgir novamente a esperança de um mundo altruísta, não só pelo melhor estar de seu semelhante, mas também para o nosso próprio bem estar, precisamos nos libertar dos excessos. Antigamente os homens viviam um menor período de tempo, hoje com o avanço da tecnologia e da Medicina vivemos um maior período de tempo, porém a impressão que temos é que vivemos menos, vivemos mais tempo, porém em menos intensidade. Somos abarrotados de excessos, excessos de compromissos, excessos de pressões sociais, de competições, de metas, cobranças e quando vamos ver, anos se passaram e parece que o sopro divino de vida esgotou-se e você se torna uma pessoa amargurada, de semblante cansado e sem vontade de viver. Temos que tomar muito cuidado para não contrairmos o vírus que a sociedade insiste em nos passar, porque uma vez infectado, irá te cegar da verdade e lhe fará viver para ser apenas mais uma engrenagem em todo esse sistema fétido e egoísta que chamamos de sociedade.

“Eu de hoje”: Certamente, caro “eu de ontem”, somos seres sociáveis. Por isso que devemos buscar formas pacíficas e voluntárias de viver em sociedade. E a única maneira de realizar tal empreendimento é não agredindo seus semelhantes. Seu discurso é um tanto bonitinho, no entanto não passa de mero artifício retórico – e bem piegas, diga-se de passagem. A verdade é que a vida possui um pré-requisito, e este é o TRABALHO. Sem produzir, você carece de recursos necessários para a vida. Seu argumento vai contra o pré-requisito da vida, que é o trabalho. A melhor maneira de ajudar nossos semelhantes é lutar por uma sociedade livre, é lutar para que os indivíduos possam ter a liberdade de conquistar a vida que sonham sem serem espoliados por um grupo criminoso. Viver mais é conquistar sonhos, é agir, produzir, utilizar a faculdade intelectual para criar coisas, criar riquezas e assim ajudamos nossos semelhantes. Reclamar que a vida é dura – e realmente é – não passa de uma atitude derrotista. Para viver, temos que conquistar nossa vida todo o dia, temos que produzir os itens que necessitamos, ou engajar em trocas voluntárias para adquiri-los. Reclamar, chorar que a vida é dura e que temos muitas pressões é um comportamento digno de um indivíduo fraco, derrotado e sem crença em si mesmo. Este sim é um vírus que temos que ter cuidado para não contrairmos. Por fim, fico feliz que tenhamos conseguido fazer o uso da razão e nos curarmos deste vírus. E que nossa experiência ajude muitos outros a se curarem.

Julio César Wandekoken Filho, 2016.

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“Os libertários ajudam a esquerda”

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“Os libertários ajudam a esquerda” – hoje é muito comum nos depararmos com essa frase. Pensadores adeptos do conservadorismo não pensam duas vezes antes de catalogar libertários no mesmo grupo que esquerdistas. Pretendo aqui combater essa afirmação, oferecendo ao leitor um ponto de vista diferente do que ele está acostumado, e muito mais profundo do que a velha e gasta dicotomia “direita vs esquerda”.

Para começo de conversa, o que seria um libertário?

De modo simplificado, também chamados de anarco-capitalistas, libertários são indivíduos que se negam a participar de qualquer ato que seja classificado como iniciação de uma agressão. Os libertários acreditam que apenas interações pacíficas e voluntárias entre indivíduos são aceitáveis, visto que iniciações de agressão e violência, além de serem empreendimentos contra-produtivos do ponto de vista utilitarista, pois geram uma queda geral de qualidade de vida nas sociedades humanas, também são atos moralmente condenáveis, pois ferem os direitos naturais do homem, que são: o direito a vida, o direito a propriedade e o direito a liberdade.

Como libertários condenam atos de iniciação de agressão,violência e coerção, seja o ato perpetrado por um indivíduo singular ou um grupo de indivíduos, os libertários vão também condenar todo e qualquer grupo que empreenda tais ações. Acontece que um destes grupos é o estado. Mas porque o estado é visto como um dos grupos que empreende ações de iniciação de violência e agressão? De maneira simplista, podemos definir roubo como “apropriação sem autorização de bens alheios”. Como o estado possui como fonte de subsistência o “recolhimento” de impostos, ou seja, o recolhimento de parcela dos recursos gerados através de transações entre indivíduos-produtores pacíficos, sem a autorização dos donos dos recursos, podemos, fazendo o uso da razão, chegar a conclusão de que o estado possui como fonte de subsistência o ato de roubar. O leitor poderia até pensar na hipótese de os impostos serem voluntários, mas após levar o raciocínio até as últimas possibilidades, tal hipótese cai por terra em confronto direto com a razão, pois veja: se um indivíduo se negar a pagar seus impostos, o que acontece? Muito provavelmente terá suas contas bancárias e seus saldos usurpados pelo governo, poderá ser preso caso resista, e, se resistir a prisão, será muito provavelmente assassinado por membros das “forças de segurança do estado”. Claramente, impostos não são opção, mas sim imposição (o próprio nome sugere). Imposição respaldada pela violência e coerção.

Basicamente, um libertário é um indivíduo que não relativiza o que é certo e errado, que não utiliza dois pesos e duas medidas e que busca sua subsistência de maneira pacífica, sem agredir outras pessoas. Diferentemente do pensamento de esquerda, que acredita que os fins justificam os meios, que deposita a fé da humanidade no estado, um ente agressor e ladrão por natureza. O pensamento libertário é incompatível com a ideologia da esquerda política, mas não só isso, a ideologia esquerdista é muito mais semelhante do pensamento conservador do que as ideias libertárias da negação da iniciação de violência. Tanto socialistas como conservadores acreditam que o estado deve regular a vida dos indivíduos, que o estado deve ser a fonte de segurança, saúde, educação e demais serviços. Pelo contrário, libertários entendem que todos esses serviços devem ser obtidos de maneira não violenta, que a possibilidade de ofertar tais serviços não deva ser monopolizada por um ente, que é por natureza um usurpador de propriedade privadas, de vidas e de liberdades.

Conservadores e socialistas são mais parecidos do que admitem. Ambos defendem que um grupo de indivíduos deve existir como elite política e decidir pela vida dos demais, tratados como súditos. A única diferença é que eles discordam em como decidir e no que decidir, no entanto a decisão continua na mão de uns poucos indivíduos tratados como nobreza. Dizer que libertários trabalham em pró da ideologia socialista é um tanto irônico, pois são os conservadores que defendem justamente a mesma coisa, com outro nome e o conteúdo ligeiramente diferente. Por isso, da próxima vez que reparar em algum conservador ser chamado de “soça”, não ache estranho. Eles o são. Mas têm medo de sair do armário.

 

A Bússola moral

Considerações sobre o livro A Ética da Liberdade de Murray Rothbard

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Imagine que é noite, e você está em um barco, no meio do mar. Você olha para os lados e tudo que pode enxergar é o amplo horizonte azul. Para onde ir? Você pega sua bussola em seu bolso, quando repentinamente o barco desliza sobre uma onda e sua bussola cai no mar. Você saberia para que direção ir?

A ideia de natureza humana é um tanto rejeitada no meio acadêmico. Hoje o que mais ouvimos e lemos é que o homem é um mero fruto do meio em que vive, e que sua concepção de moralidade é também fruto deste meio, e portanto, relativa. No entanto, ao observar o mundo a nossa volta, podemos perceber inúmeras leis naturais, ou padrões naturais. Utilizando os mesmos exemplos que Murray Rothbard deu em seu livro, se largarmos uma maçã no ar, ela irá cair no chão, assim como dois átomos de hidrogênio combinados com um de oxigênio produzirão uma molécula de água – fenômeno exclusivo encontrado na natureza destes elementos. Tratam-se de fatos observáveis, ao contrário do que citado por críticos, não há nada de místico no conceito de “lei da natureza”.

Conforme apontado por Rothbard, nossa realidade é composta de inúmeras entidades observáveis, e já que o mundo não se constitui de uma só coisa, de uma só entidade, cada uma destas coisas diferentes possui atributos diferentes, caso contrário não seriam coisas diferentes. Como possuem atributos diferentes, possuem também naturezas diferentes. Segue-se que quando essas coisas interagem, um resultado específico irá ocorrer. O comportamento observável dessas coisas, dessas entidades, é a lei de suas naturezas, e esta lei inclui aquilo que acontece como resultado de suas interações. Rothbard conclui que o complexo desenvolvido a partir destas leis pode ser denominado como a estrutura da lei natural.

Ao transportar o raciocínio para o homem e  a investigação da natureza humana, acadêmicos persistem em tachar o tema como matéria mística, de cunho teológico. Aristóteles acreditava que é a razão que nos distingue dos animais, e nos possibilita agir deliberadamente para alcançar nossos fins, o que nos permite agir além de nossos meros instintos. São Tomás de Aquino  concordou com a constatação, e adicionou que os homens não só agem propositadamente, mas também possuem a faculdade, através da razão, de compreender seus fins objetivamente como bons ou ruins para o homem. O homem então pode não só utilizar a razão para a elaboração do fim a ser alcançado, como pode também julgar o fim como bom ou ruim. Mas como o homem sabe o que é bom ou ruim?

Conforme apontado na obra, a ética da lei natural é relativa à natureza da criatura em questão. O “bem” para o homem, é um ato cujo o resultado é a realização de algo que é bom para o homem, para a espécie humana, não só para aquele indivíduo em questão. Logo, o “bem” é a realização daquilo que é melhor para aquele tipo de criatura. A lei natural declara que o bom ou ruim para o homem pode ser determinado pelo o que satisfaz ou impede aquilo que é melhor para a natureza humana. A lei natural nos mostra o que é melhor para o homem, “os fins mais harmoniosos com sua natureza, e que mais tendem a satisfaze-la”, segundo o autor.

Através da razão, podemos certamente observar padrões entre ações e resultados. O homem para sobreviver precisa agir. Sabemos também que somos uma espécie que vive em sociedades de indivíduos, nossa vida depende de interações com outros indivíduos de nossa mesma espécie. Qual seria o melhor conjunto de ações que um indivíduo pode empreender, de maneira a subsistir, e que não vá diretamente contra a subsistência de outros indivíduos de sua espécie? Seguindo esta linha de raciocínio, vamos chegar a conclusão de que apenas ações pacíficas e interações voluntárias entre os indivíduos da mesma espécie são moralmente corretas, visto que se na busca por minha subsistência eu resolver usurpar coercitivamente recursos de outra pessoa, meu ato iria prejudicar este outro indivíduo, meu ato vai contra o bem-estar de minha própria espécie, e seria instintivamente mal visto pelos demais. Comportamento pacífico entre indivíduos da mesma espécie e interações voluntárias são os meios mais harmoniosos com a natureza humana pelos quais o homem pode buscar seus fins, sua subsistência, e os únicos meios morais e éticos para tal.

Para viver em uma sociedade de indivíduos, algumas questões devem ser atendidas. O homem, para buscar sua subsistência, precisa de um certo número de “coisas”. Primeiro, ele precisa de seu corpo. Logo, qualquer atentado contra seu corpo por parte de um outro humano, seria um comportamento moralmente incorreto e condenável. Para sobreviver, o homem precisa também do fruto de seu trabalho. Logo, qualquer atentado contra sua propriedade por parte de um outro humano, seria também um comportamento moralmente incorreto e condenável. Outra “coisa” que o homem precisa para sobreviver é a sua liberdade. Ele necessita de sua liberdade de agir para sobreviver. Logo, qualquer atentado contra sua liberdade seria também um ato moralmente incorreto e condenável. Segundo a configuração natural da vida do ser humano em sociedade, ele precisa dessas três “coisas” para buscar sua subsistência de maneira pacífica convivendo com outros indivíduos. É uma regra geral para toda a espécie. Todo indivíduo da espécie humana necessita dessas “coisas”. Essas “coisas” são direitos naturais do homem, todos indivíduos da espécie humana devem respeitar o direito de seus semelhantes, pois qualquer agressão a estes princípios vai contra a natureza do próprio agressor, logo é uma negação da natureza do próprio agressor. Uma auto-negação, por isso que ao reagir violentamente a alguém que iniciou uma agressão contra si, não é moralmente condenável, visto que o agressor em si mesmo já auto-negou seus direitos ao iniciar a agressão contra um indivíduo pacífico.

Seguindo a razão, o homem consegue chegar a leis objetivas, não passíveis de serem relativizadas. O direito natural a vida, propriedade e liberdade é produto da interação da razão humana com a natureza ao seu redor, é um dado imutável. A lei natural fornece um conjunto objetivo de normas éticas que guiam as ações humanas em qualquer época e lugar. Portanto, nós seres humanos possuímos uma bussola moral para medir nossas ações. Ações voluntárias e pacíficas são classificadas por nossa bussola moral como corretas, já ações violentas e coercitivas são classificadas como incorretas.

Quando nós relativizamos o que é moralmente certo e o que é moralmente errado, o que fazemos é desregular ou até mesmo quebrar nossa bussola moral. Quando tentamos justificar uma agressão, não importa o motivo, mesmo sabendo que uma iniciação de agressão é ir contra o direito natural dos indivíduos, mesmo sabendo que é ir contra a natureza da vida humana em sociedade, o que fazemos é negar a nossa própria natureza, os nossos próprios direitos. Ao relativizar o que é certo e errado, nós quebramos nossa bussola moral, fica impossível saber quais ações são éticas ou não, a lógica racional é prostituída, de repente iniciar agressões agora é aceitável, enquanto defender-se de agressões se torna crime. O mundo é virado de cabeça para baixo, indivíduos podem escolher arbitrariamente o que é certo e o que é errado, basta terem poder e assinarem papéis em algum gabinete governamental. Sem nossa bussola moral, nos encontramos perdidos, sem saber para onde remar.